Iniciar para a Vida Cristã
A catequese patrística parece constituir uma explicação dinâmica e elementar a partir de um certo número de coisas concretas, em ordem à educação da fé que suscitará a esperança e se abrirá à caridade: os acontecimentos da história sagrada, os artigos do Símbolo e os ritos dos sacramentos. Em segundo lugar, estas realidades, por essência misteriosas e com um conteúdo divino, exprimem-se por palavras, imagens e gestos extraídos do viver quotidiano. Por isso, segundo Santo Ireneu, é necessário demonstrar ou dar uma justificação ao acto de fé. Do particular ao geral, e estabelecendo a relação entre o Novo e o Antigo Testamento, procura-se encontrar uma correspondência ou fio condutor nos modos de agir de Deus nas diferentes etapas da história da salvação. O cumprimento em Cristo das profecias do Antigo Testamento constituía o grande argumento da unidade e continuidade do desígnio salvífico de Deus, desde a criação à redenção realizada no mistério de Cristo. Finalmente, após a exposição e a demonstração chega o momento da exortação, advertindo-se os catecúmenos contra as tentações a que continuarão expostos depois do baptismo e o perigo para a fé do possível confronto com o mau exemplo dos próprios cristãos. Esta catequese moral, até à plenitude da vida baptismal, no século IV é colocada em relação com o ensinamento dogmático do qual constitui a incidência prática das verdades enunciadas. Centrando seu conteúdo na tradição da fé, inspira-se fortemente na catequese Judaica, conforme testemunho do recurso frequente aos textos do Antigo Testamento.
Primeiras Etapas
A catequese bíblica preenche principalmente as primeiras etapas, durante as quais se comenta o essencial da Escritura ou a história da salvação na sua totalidade, desde a criação do mundo até ao tempo presente da Igreja, em cuja águas baptismais se actualiza e une num único acontecimento a libertação do êxodo e a libertação realizada pela Páscoa de Cristo. Não se perdendo no secundário, antes presta atenção ao essencial das mirabilia Dei na história da salvação. Mais do que transmitir conhecimentos ou encher e ordenar a memória dos catequizandos com listas de Reis de Judá ou de Israel e os acontecimentos da história sagrada, importa que o catequista seja capaz de parar diante dos grandes acontecimentos, penetrá-los e explicá-los de modo que seja suscitada no catequizando a admiratio das maravilhas divinas, o sentido do sagrado e a fé.
Como quadro fundamental, não encontramos os acontecimentos mas a traditio Symboli, que veio a dar origem à catequese tradicional, oferecedora de uma espécie de tratado sobre os títulos e símbolos da fé atribuídos a Jesus: Cristo, Filho do Homem, Salvador, Pastor, Cordeiro, Pedra, Porta. Do mesmo modo São Cirilo começa a Catequese sobre o Espírito Santo apresentando os diversos sentidos da palavra Pneuma e clarificando a radical distinção entre o sentido bíblico e o sentido helénico atribuído a essa palavra, procurando evitar as muitas confusões que ainda continuam na actualidade.
Os catequistas iam fazendo a recolha dos textos do Antigo Testamento que se relacionam com os diversos dogmas cristãos, dada a importância do escriturístico e profético como realização em Cristo dos acontecimentos escatológicos previamente anunciados. A título de exemplo, cada uma das catequeses de Cirilo de Jerusalém inclui também as profecias referentes ao respectivo artigo do Símbolo. Assim para a Paixão: «Vamos demonstrá-la por meio dos profetas.» Esta catequese, baseada no argumento das Escrituras, remonta aos tempos Apostólicos e ao próprio Cristo tentando mostrar aos discípulos de Emaús que os acontecimentos da Paixão e Ressurreição tinham sido anunciados no Antigo Testamento, ao falar dos Reis e dos Profetas. (Lc. 24, 25-27).
António Novais